Por Brenner R. de Freitas
As cinco turmas do 2° ano do ensino médio integrado ao técnico em período integral da ETEC de Hortolândia entrevistaram, ao longo da semana do dia 08 de março, cinco mulheres da própria instituição. A atividade foi desenvolvida no componente de Laboratório de Processos Criativos e em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.
Como parte do projeto, os alunos tiveram a missão de pesquisar a trajetória profissional e pessoal das entrevistadas e elaborar perguntas com base em dados, fontes e estudos relacionados aos temas abordados.





As entrevistas exploraram diferentes áreas, mas sempre com a questão feminina no centro das discussões. A psicanalista, estudante de psicologia e professora de Análise de Sistemas, Fernanda Hellen, foi a primeira a ser questionada pela turma do 2° MN (Médio Integrado ao Técnico de Nutrição e Dietética) sobre a importância da educação: “Acredito no poder da educação porque ela me deu mobilidade social. Eu conheci países porque tive condições de pagar, graças ao meu estudo.”
A valorização da educação também foi tema da conversa entre a turma do 2º DS-B (Médio Integrado ao Técnico em Desenvolvimento de Sistemas) e a professora e orientadora educacional Amanda Rodrigues. É importante salientar que, segundo o Jornal Diário de São Paulo, em 2023 mais de 25 mil professores foram afastados de suas funções por transtornos mentais. “O que motiva um professor a dar uma boa aula é a valorização dele. Os professores estão sobrecarregados, estão cansados. Isso torna as aulas chatas também, porque o professor tem pouco tempo e muita aula para dar. É preciso olhar para o professor de uma forma diferente, com melhores salários e condições. Emocionalmente o trabalho é desgastante.”
Cerca de 29,8% dos professores atuam em mais de uma escola, e esse número ainda é maior entre os professores do ensino médio, 36,4%. Esses dados são de uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas feita em parceria com a Universidade de Stanford e o D³e (Dados para um Debate Democrático na Educação). O estudo foi elaborado com informações do Censo Escolar 2023.
Apesar dos desafios, o vínculo com a escola e o amor pela profissão permanecem fortes. A educadora física, professora e coordenadora do ensino médio Juliana Cristina, disse: “Meu legado é sempre trabalhar a qualidade de vida, para que o aluno saia da escola com propósito de prática esportiva” quando questionada pela turma do 2° DS-A. Assim como a socióloga e Diretora Administrativa, Marianne Gonçalves, entrevistada pela turma do 2° MA-A (Médio Integrado ao Técnico de Administração) “Eu amo essa escola, é por isso que eu ainda trabalho aqui e continuo trabalhando aqui. Essa escola é diferente, eu sou apaixonada por estar aqui. Fui aluna e agora é um prazer trabalhar nessa instituição.”
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas por semana às tarefas domésticas e cuidados, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Isso representa 9,6 horas semanais a mais, quase o dobro de tempo. A professora Fernanda perguntou aos meninos que estavam a entrevistando “Vocês ajudam em casa? É preciso pensar, a mulher tem que fazer tudo dentro de casa, cuidar do filho e ainda dar conta do serviço dela. É por isso que nós vemos mais homens na área de DS. A mulher não tem tempo, ela acha que não consegue chegar lá.”
Relatos das outras entrevistadas, como da Amanda, reforçam esses dados. “Eu tenho uma rotina cansativa. Além de ser professora, cuido da casa, do meu pai, do meu irmão que é especial, do meu filho. Eu não deixo de fazer as coisas que eu gosto, mesmo cansada eu vou para a academia, faço minhas coisas, mas meu sonho é cuidar mais de mim. Me dedicar a mim e parar de cuidar dos outros. Eu gosto de me cuidar, mas me deixei de lado por um tempo. Deixei de olhar para mim”.
Quando se soma trabalho remunerado e doméstico, a jornada feminina ultrapassa 54 horas semanais, evidenciando o peso da chamada dupla jornada. Marianne e a Juliana resumiram “Eu me sinto exausta. As responsabilidades colocadas em cima da mulher são muitas. Ainda que meu marido me ajuda muito, quando a escola do meu filho precisa de algo é para mim que eles ligam.”. “Fica cansativo as mulheres trabalharem e ter que fazer as tarefas domésticas. Prejudica seu lado acadêmico e profissional. Porque não é uma prioridade para ela.”
Apesar disso, há avanços. Segundo a Forbes Brasil, cerca de 38% dos cargos de liderança em empresas brasileiras são ocupados por mulheres, o IBGE em 2013 divulgou dados com 35,7% dos cargos sendo ocupados por elas. Temos uma crescente, ainda que lenta. “Eu quero trabalhar, se os homens fazem isso, eu também quero fazer” (Marianne Gonçalves). Na própria ETEC de Hortolândia, 7 dos 9 cargos de coordenação são ocupados por mulheres. Para Juliana Cristina: “É maravilhoso trabalhar aqui, eu amo o que eu faço, é satisfatório ocupar cargo de liderança na escola.”
Ainda que ocupem cargos de liderança, elas também relataram dificuldades em suas funções. “Aqui nesta escola não acontece internamente, de homens serem mais respeitados. Mas em vários outros lugares, sim. Na própria área de educação física, na contratação a preferência é por homens” (Juliana Cristina).
“Eu lido com os supervisores das terceirizadas, mas quando eu ligo para eles não sou levada a sério. Eu preciso chamar o diretor como uma figura masculina para me validar. É meu nome que está no papel, meu nome que está no contrato, eu que faço o pagamento, mas eles só ouvem quando é um homem falando por mim.” (Marianne Gonçalves)
As entrevistas também abordaram questões de segurança e comportamento social. A nutricionista, coordenadora de curso e professora Raquel Guimarães, entrevistada pela turma do 2° MA-B destacou: “Nós mulheres temos mais desafios. Várias vezes já deixei de correr de manhã por estar escuro e ficar com medo. A academia também é um ambiente mais masculino e as mulheres não são vistas ali como esportistas e sim como um objeto de desejo. Eu quero ir treinar com a roupa que eu desejar ir, mas tenho que pensar nisso antes. É preciso os homens entenderem que o meu comportamento não tem nada a ver com o comportamento do outro. A roupa não é um sinal”.
Juliana ainda reforçou a visão: “Por mais leis que temos, o avanço ainda é lento. Por exemplo, eu estou em trabalho de roupa esportiva. Eu estou errada de estar vestida assim? Não! Errado é quem está nos lugares agredindo as mulheres” (Juliana Cristina).
Marianne destacou a diferença de sentimentos entre homens e mulheres: “Eu já tive que dar voltas com o meu carro no meu bairro, antes de entrar em casa, porque tinha um homem na minha rua e fiquei com medo. Meu marido nunca sentiu isso. Só as mulheres sabem o que é. Quando eu estava grávida, fiquei feliz que meu filho era menino porque ele não vai sofrer como nós mulheres sofremos. É exaustivo pensar que tenho que criar um filho que respeite, que não seja preconceituoso. Me preocupo e me cobro diariamente”.
A discussão se amplia quando observamos dados globais. Segundo dados da ONU Mulheres, cerca de 85 mil mulheres foram assassinadas no mundo em 2023. Isso significa 1 mulher morta a cada 10 minutos. A lei Maria da Penha é considerada uma das melhores do mundo no combate à violência doméstica, entretanto, dados da CNN mostram que 1.568 mulheres brasileiras foram assassinadas em 2025 e que 4.558 sofreram violência monitorada em 9 estados. Dados de uma pesquisa feita pelo Senado Federal mostra que cerca de 3,7 milhões de brasileiras relataram violência doméstica e só no semestre de 2025, quase 34 mil mulheres foram vítimas de estupro.
Diante desse cenário, o projeto ganha ainda mais relevância. “Ele foi pensado ano passado em forma de um piloto onde eu trouxe apenas uma mulher, empresária da região, para ser entrevistada por uma turma só. Esse ano eu quis dar voz às mulheres aqui da própria escola, e colocar turma com mulheres que normalmente eles não têm contato. É preciso reconhecer alguns privilégios e pensar o que você está fazendo para mudar o mundo, mesmo que pareça pouco. Foi uma aula criativa, onde eu deixei de ser professor e sentei para ouvir cinco mulheres que fazem parte do meu dia a dia” (Professor Brenner Freitas)
As entrevistadas reforçam a importância da escuta:
Marianne Gonçalves: “É muito legal saber que houve um interesse, um projeto em que vocês puderam ouvir mulheres. E vocês puderam ouvir um pouco por que uma mulher luta, o que que a gente enfrenta no dia a dia, o que a gente pensa”.
Juliana Cristina: “Sempre temos que trabalhar o respeito. E vem de vocês (alunos e nova geração). Vocês terão que fazer tudo isso e ajudar a população a respeitar. Porque se a gente respeita (as mulheres), se a gente faz nossa parte tudo vai melhorando, tudo fica melhor”.
Amanda Rodrigues: “É bom ouvir as mulheres, é bom sabermos que nós temos uma importância na vida de vocês. E poder compartilhar aquilo que a gente viveu de repente valoriza algo que vocês não valorizavam antes. A visão de mulher, a visão de mãe, é diferente por exemplo de uma visão de pai trabalhador. Então às vezes ter espaço para ouvir e ser ouvido é muito importante dentro do espaço pessoal e profissional”.
Raquel Guimarães: “Eu acho que a importância de dar vozes para as mulheres é porque muitas vezes as pessoas, os homens ao nosso redor, não conseguem ter esse entendimento da forma como nós enxergamos, como nós nos sentimos. E parando um pouco para ouvir o nosso posicionamento, nossos pontos de vista, consegue concatenar algumas ideias, ter algumas percepções que talvez não tinha anteriormente. E faz a pessoa refletir ‘nossa, é verdade, tinha uma parte para pensar sobre isso realmente’. E então pode também trazer essa transformação da mentalidade e da visão ao longo do tempo que é o que a gente tem visto. Mudando, melhorando, nessas gerações novas que estão vindo”.
Fernanda Hellen: “Dar vozes às mulheres é muito importante porque embora nós sejamos numericamente maioria no país, como nós não estamos em lugar de poder, muita das vezes a nossa voz não tem força. Não é que a mulher nunca falou, a mulher sempre se colocou. Tanto que, como os próprios alunos falaram (durante a entrevista), nós chegamos aqui por conta da luta de outras mulheres. Se não tivéssemos lutado, as meninas não estariam sentadas aqui e eu não seria professora, porque a mulher não podia estudar. As pessoas pararem para te ouvir, nesse mundo de conexões tão atribulado, é a coisa mais importante que a gente tem. É muito importante a gente ouvir e ser ouvida”.
“O silêncio nunca protegeu ninguém.” — Audre Lorde